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Faturei 10.000 € este mês: quanto dinheiro posso realmente gastar?

Faturar 10.000 € pode parecer muito dinheiro disponível. Mas quanto desse valor é realmente teu para gastar? A resposta começa por separar faturação, IVA e obrigações.

Imagina que este mês a tua empresa faturou 10.000 €. Olhas para a conta bancária e vês um saldo confortável.

A primeira reação pode ser pensar: “Tenho 10.000 €, portanto posso gastar 10.000 €.”

Não necessariamente.

O valor faturado pode incluir IVA e parte do dinheiro recebido pode estar destinado a impostos, fornecedores, salários ou outras obrigações.

Começa por perceber se os 10.000 € incluem IVA

Para simplificar, vamos assumir que os 10.000 € são o valor total recebido, já com IVA à taxa de 23%, e que todas as vendas estão sujeitas a essa taxa.

Total faturado/recebido
10.000 €
Valor sem IVA
8.130,08 €
IVA incluído
1.869,92 €

Neste exemplo, os 10.000 € não correspondem a 10.000 € de rendimento sem IVA. Cerca de 1.869,92 € correspondem ao IVA liquidado.

Mas atenção: isso não significa automaticamente que 1.869,92 € seja o valor que vais entregar ao Estado. O IVA a entregar resulta do apuramento aplicável, incluindo o IVA dedutível que cumpra os requisitos legais. A Autoridade Tributária explica no artigo 19.º do CIVA as regras gerais do direito à dedução. Ver CIVA, artigo 19.º

Então quanto dinheiro posso gastar?

Vamos acrescentar algumas hipóteses apenas para perceber a lógica.

Suponhamos que, neste período, tens 600 € de IVA dedutível que reúne as condições para ser considerado no apuramento.

1.869,92 € − 600 € = 1.269,92 €

IVA estimado a entregar, neste exemplo simplificado.

Agora imagina que tens ainda 1.500 € de pagamentos previstos a fornecedores e outras despesas.

10.000 € − 1.269,92 € − 1.500 € = 7.230,08 €

Disponível estimado depois dos compromissos considerados.

Este valor de 7.230,08 € não é automaticamente lucro e não significa que possas levantar ou gastar tudo. É apenas uma leitura simplificada de tesouraria.

E se ainda não tiveres recebido os 10.000 €?

A situação muda completamente.

Faturar não é o mesmo que receber. Podes ter emitido 10.000 € em faturas e ter apenas 4.000 € efetivamente na conta.

Faturação ≠ dinheiro na conta

Por isso, para analisar quanto podes gastar, é importante olhar para os recebimentos reais e para os pagamentos que já sabes que vão acontecer.

O erro de olhar apenas para o saldo bancário

Imagina que tens 10.000 € na conta, mas sabes que:

Uma leitura simplificada seria:

10.000 € − 1.270 € − 1.500 € − 500 € = 6.730 €

Saldo disponível estimado depois dos compromissos considerados.

É uma diferença importante entre perguntar “quanto tenho?” e perguntar “quanto tenho depois do que já sei que vou ter de pagar?”.

Não uses uma regra cega de “posso gastar X%”

Não existe uma percentagem universal que diga quanto deves gastar depois de faturar 10.000 €.

O valor disponível depende, entre outras coisas, de:

Uma regra interna de segurança pode ajudar na gestão, mas não substitui o cálculo da situação concreta da empresa.

Uma forma simples de pensar no dinheiro da empresa

1. Saldo bancário → quanto tens atualmente na conta.

2. Obrigações previstas → o dinheiro que já sabes que vais precisar.

3. Disponível estimado → o que sobra depois de considerares essas obrigações.

Esta terceira visão é particularmente útil quando uma empresa tem meses de faturação elevados. Um mês forte de vendas não significa automaticamente que exista o mesmo valor disponível para gastar.

Quando deves fazer esta conta?

Não esperes pelo momento de pagar o IVA para começar.

O ideal é atualizar a estimativa regularmente, à medida que entram vendas, recebimentos, compras e outras despesas.

O próprio CIVA estabelece que o imposto exigível é apurado segundo as regras aplicáveis e deve ser entregue nos prazos legalmente previstos. Ver CIVA, artigo 27.º

A pergunta certa depois de faturar 10.000 €

“Quanto destes 10.000 € está realmente disponível depois das obrigações que consigo antecipar?”

É esta pergunta que evita confundir faturação com dinheiro disponível e ajuda a preparar o pagamento do IVA sem depender de uma surpresa no final do período.

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Nota: Os exemplos são simplificados e destinam-se a fins informativos. O IVA efetivamente devido depende do enquadramento fiscal, das operações realizadas, do direito à dedução e da documentação aplicável. O “disponível estimado” não corresponde a lucro contabilístico nem substitui o apuramento efetuado pelo contabilista certificado.